Eu Li [18] – Desafio Literário 2011.05.01

Rota 66 
Caco Barcellos
Editora Record, 352 páginas

Acorda amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção
Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão…

(Chico Buarque)

O Livro não me apresentou novidades. Me embrulhou o estômago, é verdade, mas novidade não vi. As vezes dá vontade de pensar que é ficção, é duro encarar a realidade. Enquanto resenho este livro a TV está ligada no jornal matinal, mostrando a PM suspeita de assassinar 2 jovens -pobres evidentemente-  no interior do Estado no último final de semana. A mesma polícia que está sendo investigada por grupos de extermínio.  Enquanto vou ao Estádio de futebol meu namorado brinca ao telefone: “Fique longe da polícia” (triste riso! mas encaremos os fatos,né?). Há um adesivo nos carros da cidade: #euacreditonapolíciagoiana, certo dia vi um mais realista: #EutenhoMEDOdapolíciagoiana. Rota 66 fala sobre isso: É um livro sobre a polícia que Mata. A Polícia (entrando no clichê) para quem precisa de Polícia. Um livro escrito em 1993 mais que também é atual. Um livro que carrega vestígios da Ditadura Brasileira na sua Polícia. Um livro que carrega a justiça social feita por um grupo muito especifico. O tempo passa e a coisa tende a piorar. Não sei como resenhar esta realidade.

Caco Barcellos ganhou o Prêmio Jabuti  em 1993 por esta Obra. O livro começa narrando o assassinato de um grupo de jovens de classe média em uma ação equivocada de uma unidade da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) o Grupo de Polícia de Elite da Polícia de São Paulo . A partir daí o autor descreve inúmeros assassinatos sem explicação realizados pela policia militar entre as décadas de 70 e 80.  A Polícia é descrita como um verdadeiro ‘aparelho estatal de extermínio’. Há explicação sobre parte das origens da criação desse sistema, narração dos seus métodos, como o sistema incentiva esse tipo de ação e como se auto protege. Um livro emblemático de denúncia social – nada que José Padilha recentemente não tenha feito.

Sou filha de policial,   da mesma policia que fujo enquanto cidadã, entendo o ponto vista oposto e também generalista (como o de Caco Barcellos) da formação dos policiais. Não vou entrar aqui nesses méritos pois discordo nas primícias das motivações justas (ou não) apresentadas por eles. [ Algo como:  Direitos Humanos para Humanos Direitos.] Também não quero ser “Intelectual de Esquerda de Merda” (alá Tropa de Elite II) e achar que tudo que se passa é culpa da Polícia, que os meios jamais justificariam os fins. Seria hipocrisia! A Polícia – como os políticos, porque,não?-  são apenas o reflexo da nossa sociedade doente. O espelho que reflete a todos, mas só é visto por aqueles que desejam nele se enxergar.
O autor me apresenta em Rota 66 a herança da geração dos meus pais, olho o noticiário e percebo a herança dos meus filhos se perpetuando: Talvez seja essa a ânsia, o incomodo, deixado pelo livro.

“Os policiais militares foram treinados pelo Exército a usar metralhadoras, em 1969, com o objetivo de combater guerrilheiros. Mas, quatro anos depois, vencida a guerrilha, continuam usando armamento pesado durante o patrulhamento regular da cidade. Contra outro tipo de inimigo. Agora o alvo das metralhadoras são geralmente jovens da periferia, muitas vezes desarmados.[…] O exame de cada caso revela que eles acionam o gatilho de duas formas: disparandotiros intermitentes, igual ao revólver, ou na posição de rajada.Em ambas as posições, a metralhadora só é acionada quando a prioridade é considerada máxima. […]Na concepção de policiais mal orientados, prioridade máxima pode ser estabelecida através de uma simples desconfiança.”
(Capítulo 3) 

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7 comentários sobre “Eu Li [18] – Desafio Literário 2011.05.01

  1. Tbm li Rota 66 para o DL e me identifiquei totalmente com a sua resenha. Fazia muito tempo que um livro me perturbava tanto, é muito desolador encarar toda a impunidade e a negligência relatadas no livro.

    Enfim, só quem lê entende mesmo. É pesado e é triste, mas é um livro muito necessário.

  2. Olá Leticia,
    Muito boa sua resenha. Já li outros livros do gênero e o outro do Caco Barcelos . São livros para noa atualizar da nossa dura realidade mas leio somente quando estou bem e nunca dois seguidos. Eles são muito pesados, me deixam deprimida.

Diz aí:

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