Eu Li [21] – Desafio Literário 2011.05.03

Na Pele de um Dalit 
Marc Boulet
Bertrand Brasil, 322 páginas

“O que aconteceria se um francês bem alimentado, criado no conforto da sociedade ocidental, se transformasse repentinamente em um dos seres mais indigentes do planeta: indiano e intocável? Como suportaria esse novo tipo de vida? Como veria o mundo? Experimentaria as mesmas alegrias, dores e sensações de antes? Descobriria a Índia, país fabuloso, com seus marajás, caçadas aos tigres em selvas impressionantes, habitadas por papagaios e elefantes, templos barrocos e sábios meditando sobre tábuas com pregos, vacas sagradas, os horríveis leprosos e o mendigo mirrado que morre diante do turista, sobre uma calçada em Calcutá. Tantas imagens de Épinal, visões exóticas que a metamorfose em intocável indiano sem dúvida destruiria.”

Assim o livro se inicia. Pensei comigo no deleite de invadir uma cultura. (Ah! eu particularmente gosto tanto disso… Descobrir outros mundo e reiventar a si próprio pelo olhar dos outros…) Vou confessar! Queria ler este livro a muito tempo… E esse tempo remete sim aos tempos da novela! 🙂 Não que eu esperasse que a Índia fosse o conto de fadas Global, mas conhecendo o mito queria desconstruído-lo, daí a expectativa pela leitura deste livro.

Quando o autor resolve falar da Índia tinha em mente um país com uma cultura muito distinta, descubro contudo (nas entrelinhas de todo um preconceito que já já comento ) que na verdade existem inúmeros laços socio-econômicos que nos unem .Veja isso:

Barulho e fúria. Mais uma vez.
O país está em chamas desde ontem. Recomeça a “guerra das castas”, como no outono de 1990. Os estudantes das castas mais altas protestavam então contra um decreto que reservava 27% dos empregos na administração central para as “classes atrasadas”. Como sempre, nas manifestações na índia, houve um excesso de violência, lojas destruídas, ônibus incendiados, bombas e até mesmo o horror do sacrifício pelo fogo de vários estudantes. A justiça tinha suspendido a aplicação desse decreto, mas na segunda-feira a Corte Suprema aprovou sua constitucionalidade, e os estudantes das castas altas tornaram a ir para as ruas. Manifestações públicas, bombas, ônibus incendiados…Os 27% se somam nos 22,5% já reservados aos intocáveis. A metade das colocações do funcionalismo público será bloqueada para elevar a condição das classes desfavorecidas. Os estudantes das castas superiores estão furiosos. Sentem-se prejudicados por causa de seu “nascimento superior” e consideram o sistema de percentagem antinacional, levando à contratação do pessoal menos qualificado e atrasando o desenvolvimento da índia. Grosso modo, um candidato intocável medíocre encontraria um emprego mais facilmente que um brâmane brilhante. Blablablá… Digo isso porque os estudantes brâmanes não precisam se preocupar, nem queimar ônibus, nem se sacrificar. Os intocáveis representam cerca de 23% da população indiana. Isso corresponde aos postos que lhes estão reservados, mas, depois de mais de 40 anos de exercício das cotas, sua representação na administração pública não passa dos 10%. Em compensação, constituem 85% dos garis e 28% dos agentes técnicos. Suas cotas nos empregos interessantes muitas vezes não lhes são atribuídas por múltiplas razões, e os agentes recrutadores, que pertencem à máfia das castas altas, não param de alegar a ausência de candidatos capacitados.

Sério. Isso é mesmo tão diferente dissodisso ou disso ?

O autor também fala das mulheres indianas e seu sofrimento e a liberdade idealizada por ele para elas… em muito se assemelhando os protestos da Lei Maria da Penha (sem recortes pois não quero  estender ainda mais o post).
Potências econômicas com dificuldades de atender, democratizar, suas conquistas no âmbito de toda a população ! O Brasil de 1992 (ano que o livro foi escrito) não se distinguia em muitos aspectos (no meu ponto de vista) da Índia daquele tempo! Tabus religiosos a parte, as reivindicações da sociedade se assemelha: As críticas, os preconceitos idem.

Meu problema com este livro foi sentir que faltou a um europeu a sensibilidade para narrar isso! A cada página que passava, me perguntava o que esse francês acharia de nossa sociedade. Será que a julgaria tão ordinária como julgou a indiana? (sim, sim! ele a julgou ordinária inúmeras vezes nessas páginas!) Não que eu esteja negando  os problemas sociais, nem que pessoas com raiva (o que o autor apresentou em muitos momentos) não tenham o direito de expressa-la em livros  e/ou expressar o que bem entenderem sobre determinada cultura. Só acho que por vezes expressa-se um desfavor quando se emitem gritos a surdos. A maneiras e maneiras de propor uma indignação sobre determinado acontecimento, creio que ele escolheu a alternativa que de nada afeta a vida daqueles pelos quais ele se indigna.

As sinopses dos sites de busca me apresentavam um ensaio antropológico:

 O jornalista Marc Boulet (Francês) se infiltrou no grupo mais discriminado da Índia e fez um relato de sua experiência. Para que seu personagem fosse convincente, Marc estudou os costumes do povo, aprendeu o idioma hindi e metamorfoseou-se em um nativo: cabelo despenteado, roupa velha e pele escurecida com tintura para cabelo e nitrato de prata. Sob o nome de Ram Munda, Marc sentiu na pele o que é viver no grau mais baixo de miséria. Durante o período em que esteve misturado aos intocáveis de Benares, ele mendigou, compartilhou sua condição de vida e sofreu as mesmas humilhações. Na pele de um Dalit é emocionante, chocante e proporciona ao leitor compreender melhor a realidade degradante que milhões de pessoas em todo mundo são obrigadas a enfrentar.

Unh.. Oi?
Sério que era essa a pretensão? Foi o que menos encontrei ao final.
Sabe, meu namorado vai dizer que esta resenha carrega um pouco do meu próprio preconceito. Ele não está errado.
Ao final deste livro encontro apenas um Jornalista escrevendo para um  grupo restrito. Um jornalista escrevendo sobre o terceiro mundo. Um jornalista europeu escrevendo sobre o terceiro mundo. Pior! Um francês escrevendo sobre a Índia.
Fico decepcionada.
Este livro fala de alguém preconceituoso, erocêntrico, disposto  a viver uma aventura. Alguém que chega a dizer a pedir:

[…] Os humanistas ocidentais devem condenar o hinduísmo […] O “castismo” é um sistema segregacionista, assim como o apartheid na África do Sul. Tão ignóbil e condenável quanto ele. O varredor e o leiteiro na Índia correspondem ao negro e ao mestiço na África do Sul. A marca é de nascença e fica colada na pele até a morte. Como o pigmento. Insisto: a casta é indelével. Sem esperança de ascensão social. Cada um em seu gueto, com deveres e direitos diferentes. […] Essa desculpa cultural para o “castismo” me arrepia. Desse modo, se poderia justificar o antissemitismo como parte do patrimônio europeu. Tudo pode ser justificado.

(minhas palavras de quase 50 páginas seguidas do livro com trechos semelhantes a este aí de cima) “medidas do ocidente para acabar com o Hinduísmo, porque afinal o cristianismo prega igualdade e essa é a melhor alternativa”
Gente! Como assim? Por essas e outras que digo que quase não consigo acabar de ler.
Ah! E tem outra! O cara se propõe a entrar em uma cultura para poder entendê-la de dentro, certo? Aí em meio a uma dúzia de dificuldades habituais de quem se propõe a tal coisa ele diz:
“Tenho mais o que fazer para ficar sondando o que (os indianos) pensam.”
Unh… É seria realmente desnecessário se a proposta dele nao fosse essa,né?
O que mesmo ele foi fazer lá ?
=/

Frustrada com isso tudo..
.

.
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3 comentários sobre “Eu Li [21] – Desafio Literário 2011.05.03

  1. Olá,
    Comprei esse livro em um aeroporto quando esperava na sala de embarque. Adoro a Índia, e achei que esse livro traria discussões interessantes e pontos de vista incomuns sobre o país e seus costumes. Infelizmente me decepcionei, e muito! O autor não se infiltra na sociedade indiana, ele a julga de fora, com um ar de superioridade e repleto de preconceitos ocidentais. Por vezes, a impressão que tive é que o jornalista se achava bom demais para passar por certas situações. Ele não queria um enriquecimento empírico, mas vender muitos livros. Assim como jornais sensacionalistas o fazem. Sou jornalista e ele é uma vergonha como profissional e pessoa.

  2. Adorei seu ponto de vista, normalmente eu fujo desse tipo de relato, por isso provavelmente não vou ler. Detesto a falta de humildade para entender o outro e achar que o seu é que o certo! Existem pesquisas muito boas sobre os “dalits”, inclusive com muitos médicos e advogados que são dessa “casta”, uma muher dessa casta já foi inclusive governadora de um estado indiano. Não estou defendendo, mas também não entendo tão bem a cultura hindu, mas sei que nem tudo é branco e preto. Eu largaria o livro no momento que lesse isso: ” Os humanistas ocidentais devem condenar o hinduísmo…”, quem ele pensa que é para condenar uma prática religiosa com mais de
    5 mil anos!
    bjs
    Jussara

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