Da dádiva da dor (*)

* ou sobre, mais uma vez, a lógica irrestrita do trabalho. Afinal é segunda.

         A dor física é a sensação de incômodo causada pelo estímulo às terminações nervosas sensitivas. Ao aproximar a mão do fogo sentimos a dor causada pela queima da pele. As terminações nervosas sensitivas cutâneas avisam, quase que instantaneamente, ao sistema nervoso central que é preciso afastar a mão para não haver perdas de tecido. É a dor que inicia o processo de autoproteção.

         Uma pessoa, que perdeu a sensibilidade nervosa, pode perder parte do corpo por não sentir dor. Um hanseniano, com a doença em estado avançado, perde quase que completamente a sensibilidade à dor. Aos poucos suas mãos e pés vão deteriorando em consequência de acidentes que poderiam ser evitados se sentissem dor. Muitas perdas acontecem por insensibilidade, se ouvíssemos a dor ao invés de tentar dirimi-la, não teríamos perdido tanto.

        A dor é a dádiva de Deus que impede o esfacelamento do corpo. A dor indica que o corpo, ou parte dele, está correndo risco, deve ser protegido. Quando se sente uma dor causada por um sapato apertado, não parece razoável aplicar uma anestesia no pé, mas trocar o sapato. Como incomoda um sapato apertado, por isso prefiro os tênis, são mais confortáveis, dão mais liberdade aos pés. Sapatos apertam os pés e condiciona a alma.

        A dor, em situações de risco, pode ser a salvação. Uma dor de cabeça pode indicar vários tipos de doenças físicas ou psicológicas. Tomar analgésico por um período prolongado pode ser perigoso, melhor mesmo consultar um médico, como isso é penoso para os homens. Diferentemente das mulheres, os homens se preocupam muito pouco com a saúde, preferem os analgésicos.


               Assim como tomar analgésico por período prolongado coloca em risco a integridade física, disfarçar as dores da alma coloca em risco a integridade emocional. O aforismo popular, “o tempo cura”, é falso. O tempo não cura, anestesia, joga maquiagem em cima da ferida. Perdas de pessoas amadas, traições de amigos, decepções amorosas, quando não remediadas, continuam, não importando quão distantes estejam. Alguns desconfortos o tempo encobre muito bem, outros mais profundos exalam a ausência de assepsia.

              Esquecer a pessoa amada que se foi é homicídio, a dor a transporta para as lembranças, onde deve viver até o momento do reencontro, os monumentos na memória são garantias disso. Uma decepção esquecida perde o que tem de bom nas decepções: o aprendizado, a superação, o orgulho quebrado… Decepções amorosas, quase sempre, acontecem por causa do esquecimento de quanto eram felizes – o casal, esquecido dos momentos bons, abrem os olhos para os defeitos do outro.
Para os ressentimentos que ainda causam dor existe o perdão. Perdão é mais que esquecimento, é superação, reordenação da memória. O passado não pode ser removido, mas pode ser resolvido através do perdão. O perdão acontece quando as lembranças são tranquilas. Quando um objeto, uma situação ou uma pessoa que nos remetiam ao passado deixam de fazê-lo, então percebemos que perdoamos. O ressentimento esquecido é uma quimera sedada, quando acordar reclamará os dias de letargia.

              Lembrar é viver, não reviver o passado, mas viver a plenitude da vida. Assim como a esperança, a lembrança define quem somos. O presente não existe, o tempo é contínuo e por mais que tentem, não há como detê-lo. Tudo que fazemos ou faremos está no passado ou no futuro. Esquecer o passado implica a amputação do futuro.

             As lembranças são mapas, quem as perde, perde-se, quem as mantem, caminha. O escritor bíblico Jeremias lamentando sua história disse: “lembro-me bem disso tudo, e a minha alma desfalece dentro de mim. Todavia lembro-me também do que pode me dar esperança” (Lamentações 3.20,21). A garantia do futuro em que valha apena estar nele não pode ser outra se não o passado – as lembranças sedimentam a esperança. Sonhos sem edificações são devaneios.

             Se as lembranças causam dor precisão ser diagnosticadas e expurgadas. Tentar eliminar a dor por amnésia é como apagar a luz no painel do carro que indica o fim do combustível. Muitos estão parados na estrada pela deficiência da luz do combustível. A dor é apenas o indício do que está por baixo do véu do esquecimento. Anestesiar a dor ao manter o véu, não é inteligência, é ignorância, não é clemência com o passado e sim alheamento dele.

             Acostumar-se à dor, aceitando-a como natural, também não é inteligente, o condicionamento à dor crônica causa tantos males quanto sua extirpação imponderada. Quando prolongada, a dor se transforma em sofrimento, o sofrimento adoece a alma. Paulo argumenta que “somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos” (2 Coríntios 4.9). Aceitar a dor como natural equivale destruir a utopia de felicidade. Contraditoriamente, a dor nos tira a possibilidade de ser feliz, enquanto nos oferece o deslumbre da felicidade transcendente aos conceitos e às formas.

Basta-me aspirar por mundos inexistentes, acalentar desejos calmos, reconstruir ruínas, refletir diante do espelho, agonizar pela sensibilidade solidária. Que nome alguém dará a isso, não sei. Minhas lágrimas e meus sorrisos talvez denunciem que, paradoxalmente, sou feliz. (Gondim).

               Feliz é quem desiste de ser feliz e aceita as contingências da vida, não como natural, mas como evidência de que ela é muito grande para ser controlada. Ser resiliente em situações de desconforto pode ser a parede que separa a dor do sofrimento. Existe o para-além-da-vida, quem impõe a si a felicidade no agora vive frustrado e de mal com o passado. Reconstituindo a história de nossas vidas, verificamos que as situações de decepção de incertezas e de dor permearam todos os instantes, até os que arrogamos de felizes. O choro pode ser tudo que a alma precisa.

Quem chora lava o presente com lágrimas para que, no futuro,quando o agora se tornar passado,as lembranças estejam limpas.Quem chora constrói uma memória sem ressentimento,da qual não precisa fugir. Quem chora não se torna vítima de si mesmo.

             A tirania da felicidade perene, do sorriso irrestrito, causa mais dor que as lágrimas. Em algumas situações as lágrimas podem demonstrar incredulidade, mas quase sempre é o solvente asséptico que amolece e depura as sujeiras da alma, impedido que a dor se solidifique em sofrimento.
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4 comentários sobre “Da dádiva da dor (*)

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